quarta-feira, 29 de maio de 2019

Sobre o suicídio

Amados, com grande tristeza nos deparamos por vezes com está triste realidade do suicídio, pessoas que pelas mais variadas razões tiram a própria vida; e como cristãos sempre nos surge o questionamento: O suicida pode se salvar? Tal pergunta merece reflexão.
Por um lado sabemos que Deus é Amor[1], rico em misericórdia[2] e que não deseja perdição de ninguém[3], portanto, mesmo diante da morte trágica não devemos nos desesperar da salvação daquela alma, conforme nos ensina a Igreja:
CIC - Catecismo da Igreja Católica nº 2283. Não se deve desesperar da salvação eterna das pessoas que se suicidaram. Deus pode, por caminhos que só Ele conhece, oferecer-lhes a ocasião de um arrependimento salutar. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida.
Sabemos também que o suicida muitas vezes encontra-se envolvidos por circunstâncias diversas, seja por questões de saúde, física ou psicológicas que conforme ensina a Igreja podem de certo modo “diminuir” sua responsabilidade (CIC 2282).
Portanto, podemos dizer que sim, é possível que alguém que tenha cometido suicídio se salve.
Contudo nosso coração inquieto nos leva a uma segunda pergunta: É provável que alguém que tenha se suicidado se salve?
De fato Deus oferece a todos a salvação de modo gratuito e por pura benevolência; de nós pede apenas a fé: Que creiamos em Cristo[4], enviado do Pai que reconciliou o mundo consigo[5] e crendo Nele façamos em nossa vida obras semelhantes às de Cristo cumprindo seus mandamentos.
Para alcançarmos a salvação precisamos livremente escolher amar a Deus e estar unido a Ele, está união que se inicia nesta vida se plenificará no céu,[6] sendo de fato o único obstáculo para nossa salvação o nosso livre arbítrio, ou seja, apenas nós mesmos podemos “escolher” a perdição eterna.
CIC 1033. Não podemos estar em união com Deus se não escolhermos livremente amá-Lo. Mas não podemos amar a Deus se pecarmos gravemente contra Ele, contra o nosso próximo ou contra nós mesmos: «Quem não ama permanece na morte. Todo aquele que odeia o seu irmão é um homicida: ora vós sabeis que nenhum homicida tem em si a vida eterna» (1 Jo 3, 14-15). Nosso Senhor adverte-nos de que seremos separados d'Ele, se descurarmos as necessidades graves dos pobres e dos pequeninos seus irmãos (629). Morrer em pecado mortal sem arrependimento e sem dar acolhimento ao amor misericordioso de Deus, significa permanecer separado d'Ele para sempre, por nossa própria livre escolha. E é este estado de auto exclusão definitiva da comunhão com Deus e com os bem-aventurados que se designa pela palavra «Inferno».
Ora, o requisito para se ir para o inferno, ou seja, perder a salvação é “Morrer em pecado mortal sem arrependimento e sem dar acolhimento ao amor misericordioso de Deus, significa permanecer separado d'Ele para sempre, por nossa própria livre escolha.
Do ensinamento da Igreja podemos nos deparar com critérios, objeto e subjetivos que determinam a perdição eterna de uma alma:

Objetivo: Morrer em pecado mortal:
O suicídio é um homicídio premeditado e nenhum homicida tem a vida eterna presente nele[7] Nós somos administradores e não proprietários da vida que Deus nos confiou; não podemos dispor dela.[8] O suicídio é gravemente contrário ao justo amor de si mesmo.[9]
 Além disso ato em si geralmente está repleto de soberba em que o suicida, movido por um amor desordenado da nossa própria excelência, não compreendendo sua miséria e fragilidade humana não aceita passar as humilhações que a vida lhe reserva, muitas talvez consequências de seus próprios erros.
É também um ato de desespero de quem não confia em Deus e em seu auxílio;
É ainda um ato egoísta de quem acredita que ao pôr fim a própria vida resolve seus problemas, contudo, esquece-se dos que estão à sua volta, de sua família, e dos que os ama.
Pode ser ainda um ato de covardia de quem não quer sofrer, seja dores físicas ou emocionais, e portanto, para este, o sofrimento de Cristo nada significa.
Alguém poderia alegar ainda que o suicida teria caído tentação, contudo nos diz São Paulo: "Não vos sobreveio tentação alguma que ultrapassasse as forças humanas. Deus é fiel: não permitirá que sejais tentados além das vossas forças, mas com a tentação, ele vos dará os meios de suportá-la e sairdes dela."[10] Logo tal argumento não procede, Deus não permite tentação superior às nossas forças.
Há ainda outras nuances contudo, resta claro que o suicídio, portanto, é PECADO MORTAL capaz por si só de levar quem o comete para o inferno.

Subjetivos:
Morrer sem arrependimento e sem dar acolhimento ao amor misericordioso de Deus
Por trata-se de critérios subjetivos o julgamento cabe exclusivamente a Deus, pois apenas Ele conhece o coração humano[11]
De fato, é possível que o suicida se arrependa contudo, trata-se aqui do arrependimento ocorrido entre o início da execução e consumação do ato, em geral um breve momento, pois se o arrependimento for anterior ao início do ato o suicídio não teria ocorrido.
Arrepender-se e acolher o amor de Deus significa uma decisão intima e que, portanto, não pode ser aferida por nós; aí reside nossa esperança, embora seja razoável perceber que tal fato deva ser raro. Ora, em plena execução do homicídio (contra si mesmo) haveria tempo para o suicida arrepender-se e, num ato de contrição perfeito pedir perdão a Deus e acolher seu amor? De fato, a graça divina nos acompanha a todo instante, contudo, poderia alguém que a desprezou por completo acolhe-la já em tal situação?
Por fim, a posição que se firma é a de que É POSSÍVEL que alguém que tenha se suicidado se salve, porém, é IMPROVÁVEL.




[1] I João 4, 8
[2] Efésios 2, 4
[3] Sabedoria 1, 13
[4] Marcos 16, 16
[5] 2Cor 5,19
[6] Catecismo da Igreja Católica 1.023 e 1.024.
[7] I João 3,15
[8] CIC nº 2280
[9] CIC nº 2281
[10] I Coríntios, 10, 13
[11] I Samuel 16,7

Nenhum comentário:

Postar um comentário